Eduardo Vale
Eduardo Vale é artista visual contemporâneo, designer gráfico, diretor de arte e produtor cultural brasileiro, com trajetória iniciada no final da década de 1960. Sua formação reúne artes visuais, design, publicidade, produção editorial e comunicação, experiências que contribuíram para uma linguagem autoral baseada na matéria, na textura, na memória e na percepção sensorial.
Em 1969, iniciou sua formação em Desenho Artístico no SENAC e, no início dos anos 1970, passou a atuar profissionalmente como arte-finalista e ilustrador. Em 1973, viveu uma importante experiência profissional na Itália, tendo contato com ambientes criativos ligados a Fiorucci, Mondadori e Rizzoli, experiência que ampliou seu repertório em composição, design, direção de arte e comunicação visual.
Na década de 1970, conciliou a atuação profissional com as artes visuais. Em 1974, recebeu reconhecimento no 2º Salão Global de Inverno, com Depois da Última Foto, e, em 1976, apresentou A Fusão, em exposições relacionadas ao Palácio das Artes e à Casa dos Contos. Também atuou profissionalmente como Eduardo Pardal, consolidando-se como diretor de arte e designer gráfico. Foi sócio e diretor de arte da Quilombo Produtora, participando de projetos ligados à música, ao teatro, à dança e à cultura brasileira, incluindo trabalhos relacionados a Milton Nascimento, Fernando Brant, Murilo Antunes, Tavinho Moura e Grupo Corpo.
Entre seus trabalhos mais significativos está a criação da ilustração e da capa do álbum Ânima, de Milton Nascimento, lançado em 1982. A partir do sonho relatado pelo músico, Eduardo transformou uma experiência subjetiva em linguagem visual, estabelecendo uma relação entre sonho, memória, imagem e matéria. Essa experiência anteciparia uma questão central de sua produção contemporânea: dar forma ao que inicialmente não possui forma.
A partir de 2022, passou a concentrar sua produção na arte contemporânea, desenvolvendo uma pesquisa sobre as texturas do cotidiano. Paredes, pisos, telhados, terrenos, construções, papéis e superfícies urbanas tornam-se referências para obras construídas com relevo, pigmentos, minerais, terras, areia, argilas, óxidos, carbonatos, arenitos, colagens e outros materiais. O MDF é utilizado como base estrutural para os trabalhos em relevo.
Eduardo não busca reproduzir literalmente as superfícies que observa. A textura é ponto de partida para uma interpretação em que memória, matéria, luz, sombra e passagem do tempo se transformam em uma nova estrutura visual e tátil. Seu processo é lento e inclui períodos de repouso das obras no ateliê, permitindo observar suas transformações antes da conclusão.
A terra e os minerais ocupam também uma dimensão conceitual em sua produção, relacionados à origem, transformação, permanência e retorno. Como sintetiza o artista: “Minha arte guarda os elementos da terra - o barro do qual vim, o barro para o qual voltarei.”
Outro eixo fundamental de sua produção recente é a incorporação do Braille diretamente às obras de arte. Os pontos em relevo integram a composição e podem ser percebidos visualmente ou lidos pelo tato. O Braille deixa de ser apenas recurso de acessibilidade e passa a atuar como linguagem, textura, forma e significado, ampliando a experiência da obra para além da visão.
Essa pesquisa conduz sua reflexão sobre arte tátil e inclusão cultural. Para Eduardo, a acessibilidade deve estar presente na própria concepção da obra, permitindo diferentes formas de percepção. Experiências realizadas com pessoas com deficiência visual, especialmente a partir de 2023, reforçaram essa investigação, aprofundada em 2024 com a exposição Texturas do Cotidiano.
Sua obra propõe a coexistência entre visão e tato. Luz, sombra, cor, volume e materialidade dialogam com rugosidade, densidade, ritmo, direção e palavra. Assim, imagem, matéria, toque e linguagem passam a ocupar uma mesma superfície artística.
A memória e a impermanência também são recorrentes em seu trabalho. Paredes, pisos e materiais desgastados carregam marcas únicas da ação do tempo, do clima e da intervenção humana. Essa percepção se resume em uma de suas ideias centrais: “Nada pode ser repetido.”
Em 2024, participou do Território da Arte de Araraquara e ampliou sua atuação em projetos voltados à arte tátil, acessibilidade e inclusão cultural.
Ao longo de mais de cinco décadas, sua trajetória revela uma continuidade: transformar ideias e experiências em linguagem — da ideia para a imagem, do sonho para a forma, da memória para a matéria e da visão para o tato. Em 1982, como Eduardo Pardal, transformou o sonho de Milton Nascimento em imagem. Hoje, como Eduardo Vale, transforma as marcas do tempo, as texturas do mundo e a memória da matéria em experiência artística.
Eduardo Vale vive e trabalha em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde desenvolve sua pesquisa em arte contemporânea, materialidade, textura, memória, Braille e inclusão sensorial. Seu trabalho sintetiza uma trajetória que conecta design, cultura brasileira e arte contemporânea, aproximando matéria, memória, visão e tato.